O blog está bem, obrigado. E eu? Estou em "reforma".
21 Julho, 2009
03 Junho, 2009

Paula Fernandes
Composição: Victor Chaves
Eu sou o brilho dos teus olhos ao me olhar
Sou o teu sorriso ao ganhar um beijo meu
Eu sou teu corpo inteiro a se arrepiar
Quando em meus braços você se acolheu
Eu sou o teu segredo mais oculto
Teu desejo mais profundo, Teu querer
Tua fome de prazer, sem disfarçar
Sou a fonte de alegria, Sou o teu sonhar
Eu sou a tua sombra, Eu sou teu guia
Sou teu luar em plena luz do dia
Sou tua pele, proteção, Sou teu calor
Eu sou teu cheiro a perfumar o nosso amor
Eu sou tua saudade reprimida
Sou teu sangrar ao ver minha partida
Sou teu peito a apelar gritar de dor
Ao se ver ainda mais distante do meu amor
Sou teu ego, Tua alma
Sou teu céu, O teu inferno, A tua calma
Eu Sou teu tudo, Sou teu nada
Sou apenas a tua amada
Eu sou teu mundo, Sou teu poder
Sou tua vida, Sou meu eu em você
29 Janeiro, 2009
Ela foi menina. Ela foi só esperança.
Ela já serviu para outro tipo de coisa.
Ela já foi outra pessoa.
E foi cozinhando, anotando pedidos e servindo outros tipos de pessoas que ela sentia seu estômago doer. E olha que não era uma dor qualquer. Era um dor que vinha como uma coceirinha que começava a esquentar e parava. E começava mais intensa e incômoda e parava.E começava e parava. E começava e parava, até ela ficar extremamente irritada.
- Deve ser úlcera, gastrite... come alguma coisinha menina! Dizia o patrão cada vez que a moça se queixava.
Ela, a garçonete, não pensava em outra coisa. Passava a mão em uma migalha de pão e enfiava na boca. Era um alívio! Minutos depois a dor voltava.
- Come alguma coisa mulher! Dizia o patrão.
Ela, que era mãe, sabia que com a fome não se brincava. Então, passava a mão em uma ou duas batatinhas fritas, enfiava na boca e comia. Mas não estava com fome. Era um alívio... um meio alívio. E a dor começava outra vez e ela comia. E não estava com fome. E comia. E vinha a dor e o patrão dizia:
- Come minha filha, come!
Ela, que já tinha servido para outro tipo de coisa, comia e comia e comia. E não é que a bendita dor não passava!
Ela, que já foi outra pessoa, se olhava no espelho e o espelho olhava para ela. E o que via? Via que estava gorda, mas gorda, muito gorda. Estava nutrida, rechonchuda, entupida, untuosa... Na verdade estava cheia... muito cheia.
Ela, que foi só esperança, ainda sentia bem lá no fundo, bem além da dor, um vazio. Um vazio inexplicável na alma.
E a dor?
A dor continuava a ser sentida do mesmo jeito.
30 Dezembro, 2008

E foi lá no hospital que as coisas começaram a ser sentidas por um outro ponte de vista. A amiga deitada na maca sentiu seu fígado inchar, inchar, inchar... E foi numa fisgada profunda, que lhe tocou a alma, que ela soltou:
- Aí doutor, me dá uma dica para eu morrer logo! Gritou ela com lágrimas nos olhos. A frase ecoou pelos corredores do hospital. Silêncio total. Todos entenderam o suplício!
A dor continuou muito forte e persistiu por toda à noite. E houve o amanhecer, o breve amanhecer. Como jamais visto antes. E olha que estava sem óculos; ambas. Cansada e já sem fôlego, disse a amiga para ela:
- Diz lá em casa que eu os amo... Em mim só há espaço... Deixei o carnê da prestação da máquina de lavar debaixo da santinha no altar... não tenho mais tempo! Acho que eu vou... aí!
(...) E nos primeiros raios do sol a amiga melhorou completamente como que por um milagre. Levantou-se e até andou. Ela achou que era apenas uma melhora, daquelas que dizem que dá no paciente antes de morrer definitivamente. Sim, antes de morrer definitivamente. Mas a melhora persistiu até o meio dia. Foi liberada e tudo mais, mas antes fez questão de filar o rango esverdeado do hospital. De barriga cheia e sem dor no fígado voltou para casa, ambas.
A amiga disse para ela que viu naquelas horas de terror a lança pontiaguda da morte no seu fígado. E foi assim que a amiga encheu-se de cor, perfume e brilho. A partir daí Ela não reconheceu mais a amiga e não conversaram mais como antes. E o silêncio? Agora era apenas silêncio. Apenas para uma.
E Ela?
Espera terrivelmente por uma dica para morrer.
18 Novembro, 2008
29 Outubro, 2008
Mas como eu gostaria que eles soubessem que Manoel Bandeira não fez o Zorro e que Carlos Drummond de Andrade não inventou o avião, e mais, que Oscar Niemeyer não é um jogador de basquete.
Agora entendo porque aquele professor está se tratando de um câncer na alma! Outro dia ele se deparou com um fato que
"(...) enquantou ouver barro jamais
Sabia que as vezes as pessoas sabidas se tornam chatas? E as burrinhas também?
(...)
O que a baleia faz a noite? Nada.
14 Outubro, 2008
Fragmentos Perdidos
Todos faziam algo. E ele também fazia. Fazia não porque queria. Fazia porque todos faziam. Todos queriam alguma coisa. Ele não queria. Não é preciso explicar, porque "ele" já entendeu. Todos não esperavam algo. Mas ele espera. Espera e não se cansava. Talvez por isso ele não queria fazer algo. Um oceano inteiro. Um azul intenso. Uma vida inteira. Uma vida inteira de "afazeres" e "quereres". E o algo mais importante dele? Quase já não havia mais espaço. Mas foi como na história mais bonita que tinha ouvido falar que ele encontrou. E a história era mais ou menos assim: "Era uma vez..."12 Outubro, 2008
09 Outubro, 2008
Por fim já tinha até esquecido o que era.
Não conseguia percebê-la nem descrita em velhas cartas.
Muito menos entendia quando lhe falavam sobre.
Dentro dela, não havia espaço para mais nada.
O que não lhe causava sono despertava tristeza.
As poucas coisas que conheceu foram o necessário para viver.
Do quê? Não se sabe.
Os que souberam, são hoje todos...
08 Outubro, 2008
07 Agosto, 2008
Pequena Grande Estória
25 Abril, 2008
Ser inteligente é démodé e faz mal à saúde
O "era uma vez" agora é coisa do passado, a onda agora é jogar os filhos do sexto andar de um prédio alaranjado. Os contos de fada nunca tiveram tão presente na vida dos seres ditos viventes. As madrastas nunca foram tão reais, estão em todos os noticiários da TV. As bruxas também ajudam a elevar o ibope do programa de família no domingo à noite. As ditas cujas esfaqueiam, estripam e estrebucham seus filhinhos hoje não tão indefesos como antigamente. E aí das criancinhas que procurarem uma igrejinha pra se proteger! É minha gente, ouvi outro dia no jornal de fim de noite: “olhai os padres!” . Os políticos também estão nessa! Dizem as más línguas que muitos comentam sutilmente que esses fatos vêm em boa hora, pois assim o povo se ocupa com coisas mais importantes do que lavagem de dinheiro, cartões corporativos, sonegação de impostos e outras cositas mas. Uma outra revista disse que devemos nos orgulhar de pertencermos a um país de 3º mundo, pois nos de primeiro, os assassinatos são em massa. Pode? Se encontrássemos a cura para o câncer e a AIDS não seria um grande feito, pois ainda não encontramos a cura para humanidade. Quem foi o gênio que disse que a “humanidade é o câncer do universo”? Dizem que é o fim dos tempos? Ou talvez os tempos nunca foram tão iguais. A diferença não é globalização? Acho que os tempos estão é começando e ninguém se meche. Ficam no sofá horrorizadas sob o efeito de lexotan. Existem contos de fada porque esses casos que abalam também sempre existiram? Ou será ao contrário? Tem gente que não se abala. Minha vizinha é uma delas. Ah!, mas se fosse na novela das 8, aí o bicho pegava! Antigamente o pai que violentava as cinco filhas, violentava até criar nojo da sua própria cara – e dizem que a mãe e ninguém mais sabia! Antigamente, uma guerrinha local, uma desavencinha, matava milhares de pobres almas, e ninguém sabia disso em outra parte do mundo. Era também antigamente que milhares de mulheres, judeus e negros eram sacrificados e mesmo assim tinha gente que nem ficava sabendo disso. E graças a TV, ao rádio, a Internet; a famosa e desgastada globalização, você fica sabendo de tudo, tudo, tudo. Você espia a vizinha pela sua janela e ainda a noite dá aquela espiadinha na gostosona remexendo os peitos naquele programa de TV ma-ra-vi-lho-so. As revoluções que mataram milhões de pessoas hoje são casos de livro de História que são lidos como romance ou ficção (isso quando saem das prateleiras dos Sebos de esquina). Eu por exemplo, me comovo mais lendo Zíbia do que com o Holocauto - pode? Parece que Hitler vive mesmo é no cinema e o Che sempre foi estampa de camiseta. É cult, é fashion, falar desses homenzinhos verdes. Os homicídios, roubos, estupros e estribuchamento hoje são o “bom dia” e a “boa noite” de toda humanidade. O caos é generalizado, assim como sempre foi, a diferença é que todos sabem de quase tudo agora. Bem superficialmente mas sabem. O que realmente interessa as pessoas não sabem - até os relacionamentos são superficias! Um caso abafa o outro. Um caos puxa o outro. Vivemos num abalo, num abalo sísmico. A TV quando não causa depressão, mata! Mata a alma! Ser inteligente além de ser démodé, hoje faz mal a saúde. Se antigamente diziam que contos de fada era coisa de menina, experimente hoje contar pro marmanjão que está do seu lado! Eu começo contando assim para os meus sobrinhos:
- Era uma vez, uma linda menina que morava com sua madrasta bem no alto de uma bela e cinza torre...
02 Abril, 2008
Andy Warhol- Que merda! Não acredito que essa “estrupadora” não vai conseguir separar eles. – Vociferou ela.
Nossa heroína ainda teve tempo de assistir “Tela Espetacular” com o filme inédito do Van Dame. Cansada, muito cansada, recostou a cabeça levemente sobre o travesseiro, a modo de não estragar o penteado e a maquiagem. As unhas ainda estavam vermelhas. Ali repousou de olhos abertos, estática. Ela não sonhou. Não sentiu fome. Não sabia nem se ainda estava viva. Mas não importava. Ela estava linda, como aquelas divas da TV. Maquiada, bela e vulgarmente magra.
23 Março, 2008
Foto de Ivan Pinkava - Nature morte. Židle
- Que tanta bala é essa menino? - Disse a mãe apavorada.
- Ô tio, me dá tudo isso de entradas! - Disse ele ao bilheteiro do parque.
- Que tanto bilhete de roda gigante é esse? - Disse o pai nervoso.
E o tempo passou...
- Menino, não vai subir nesse abacateiro que tu podes quebrar um braço aí! - Disseram os pais preocupados.
E o tempo passou... E o menino nunca subiu no abacateiro atrás da sua casa.
E o tempo continuou passando...
- Ainda pego todo esse dinheiro e compro tudo em bilhetes de roda gigante! (...) Será que ainda existe o abacateiro? - Pensou ele já homem feito.
28 Fevereiro, 2008
Emerson Cardoso Nascimento
Recebi ontem uma carta. Ler? Só me dei conta que precisava hoje. É uma em branco quase carta, me chamando para lá. Ao guardá-la me deparei com outras onze cartas com a mesma letra, tamanho, cor, remetente e cheiro. Agora são doze. Nunca estou onde meus pés estão. Acho que chegou a hora de ir. De partir.
Minhas malas por incrível que pareça já estavam prontas. Só foi preciso a poeira tirar de cima das três da primeira, amontoadas lá no canto.
De banho tomado, servi duas xícaras com amargo e quente café. Tomei. A outra permaneceu xícara cheia.
Subi as escadas. Peguei meu espelho e minhas malas. Decisão tomada. Escadas eu desci e encontrei a outra xícara também tomada. (...) Pensei em estar pequena demais para aquele lugar. Cercada pelas malas, nem me lembrava há quanto tempo ali estava. Lembro do frio e de que nunca as malas desfiz.
Fechei a porta atrás de mim. Tranquei-a. (...) A cidade ainda dormia. Passei pelo jardim, mas não encontrei flores. Sementes talvez.
Sempre à esquerda, dobrei a primeira esquina e joguei ali as chaves. Nenhuma chave abre todas as portas. Já as janelas não precisam de chaves.
O sino no alto da torre batia as horas. Horas inexatas. Enquanto apressava os passos, ouvia a cidade acordar sem ninguém. Senti estar atrasada não estando, e isso não me era estranho.
Tantas coisas aconteceram, passaram e nem se quer percebi. Hoje sei que me atrasei no tempo que passou a não existir.
Cheguei a tempo. A estação vazia não parecia tão sombria quanto das outras onze vezes que ali tinha estado pela primeira vez. O guarda tomou da minha mão a passagem. Conferiu a hora, o destino, o meu nome e a causa da partida. Num gesto delicado, acho que de compaixão, apontou-me a cabine.
O trem partiu e no susto não pude ver seu rosto, mas sei que havia um rosto, pelo menos naquele. Um rosto familiar.
Pela janela estreita olhei a estação. Estava vazia, silenciosa. E o rosto se fora, como no ar. Senti a velocidade e um som ecoou. Sorri. Estava mudando.
Os outros compartimentos estavam vazios. O meu coração gelou. Pensei em desistir, fugir, correr dali... Levantei e corri pelos corredores. Era tarde. As luzes, as sombras, as lembranças, as cores, as árvores, já passavam velozmente pelas janelas... E pelos meus olhos fechados.
Voltei ao corredor e ele pareceu maior. Um labirinto como no coração. Num pude encontrar mais meu compartimento. Acomodei-me num outro sem número. Sentei. Senti minhas mãos vazias. Havia deixado as chaves e as malas na estação.
Recostei a cabeça no vidro e olhei meu relógio. Sem ponteiros, sem números, sem horas. Havia parado. Apenas escuridão. Não via as horas e sim o tempo.
Acordei oito horas depois na mesma posição olhando o relógio. Finalmente havia compreendido o tempo. O tempo relativo.
Foi a viagem mais rápida que já tinha feito. Talvez por ser a primeira e a única. Cheguei.
O movimento cessou. Os compartimentos foram abertos. Nos corredores, surpreendente, pessoas tantas, que não me lembro do rosto de nenhuma. Esperei todas descerem e só então pisei em terra firme. Estava eu agora ali onde antes era lá, sem ao menos ter enjoado.
Um pálido gentil homem ofereceu sua mão para que eu não caísse. Não estava acostumada, logo com aquelas escadas ao contrário. Ele conferiu minha passagem e informou que aquele era o lugar.
Sem passagem de volta e sem malas, esforcei-me para identificar o lugar na esperança de ainda lembrar o caminho. Não havia lugar para bagagens...
Por uma multidão de rostos, sombras, caminhos... Meus instintos me levaram. Quantos e nenhum...
Logo pude ver no alto da torre, as horas exatas. Hora de chegar.
Sempre à direita, dobrei a primeira esquina. Passei pelo jardim e havia flores, mas não sementes. E ali diante de mim estava ela. A porta. Atrás de mim, tudo aquilo... E mesmo assim, ainda ali, aquela porta. E eu sem as chaves.
Com quatro toques, sim, quatro toques dos meus dedos contra a porta me fizeram ver que eu tinha as minhas novas chaves.
Por que estava eu batendo para entrar se já estava dentro? Se eu continuasse batendo certamente alguém lá de fora entraria.
Só então me lembrei que precisava entregar aquela carta. A carta que tinha esquecido na minha mão entre os meus dedos.
Coloquei-a sobre a mesa e virei para me olhar no espelho. Tinha acabado de chegar. De frente para o espelho vi minhas costas.
Um silêncio. Ouvi passos pelas escadas. Quando procurei ver de onde vinha não encontrei mais a carta.
Desde que tinha chegado ali, estava dois dias mais velha. (...) Ainda posso ouvir passos lá em cima. O chuveiro agora está sendo ligado. Água quente, muito quente... Quase posso sentir... Pingos. Chuva de pingos.
E a carta na mesa? Não mais, simplesmente, estava lá! No lugar, duas xícaras. Xícaras brancas. Café preto. A boca adocicada. E o café... Amargo.
Uma das xícaras já estava tomada. Restou-me a outra só agora tomar. Sozinha. As duas ficaram vazias. Só senti o perfume do banho pela casa.Ainda posso ouvir... As malas sendo feitas, mas não posso ver. Sinto, algo vai partir. Decisão tomada. Está tomada.
Minhas costas teimam em ocultar meu rosto no espelho. Viro-me e não vejo nada, mas ouço. Ouço a chave. Ouço a porta sendo fechada por fora. E agora silêncio. Silêncio...
As chaves! As chaves! As chaves!(...) As chaves foram jogadas fora. As malas partem. (...) Eu chorei.
Recuei. Não sei se triste me senti ali por estar. Ali entrar. Só sei que senti das cores a necessidade. Das cores do jardim pelo qual alma minha passou.
Vi o interior. O interior inteiro de onde estava. Vi uma escada. Não pude contar o numero de degraus.
Estranho! Quanto mais subia, mais próxima do chão estava.
Subi correndo os últimos lances de escada e deparei-me com o lugar. (...) No centro um relógio negro. Sem ponteiros, sem horas, sem tempo...
O lugar vazio. As malas não estavam mais lá. Só cartas. As cartas que eu tinha escrito. Enviado. Todas elas ali, ainda repletas de cheiro... Repletas de lembranças, de saudades... Repletas... Todas elas. Agora doze.
E assim, de repente, foi como se tudo tivesse se transformado em ar. Acordei seis horas depois na mesma posição. Não me lembro de nada. Só do silêncio. Do silêncio insípido. (...) E das xícaras vazias, das malas que falta estavam fazendo...
E eu. Sem as chaves...
(...)
Batem na porta. Quatro toques. Lá fora, escuridão.
28 Janeiro, 2008
24 Janeiro, 2008
- Mas que merda! Acabei de comer aquela “mortandela” toda! – Esbravejou ela levantando-se do seu sofá xadrez. Chegando na sua asseada cozinha, tomou um copo d’água para ver se a fome ia embora (a sujeita havia aprendido esse truque no programa “Sou de Casa, Sou Feliz). E ela tomou água. Um gole, um copo cheio, uma garrafinha, depois meio galão de água e nada... Estava frustrada pela dica não ter funcionado com ela. Logo esqueceu desse pequeno infortúnio, pois uma pontada fortíssima a fez contrair os músculos da barriga e das pernas, levando-a as pressas para o puxadinho. É meu povo, não era fome nem de comida e muito menos de arte. Sentada lá no banheirinho improvisado e minúsculo, sentiu as paredes apertando-a contra o vaso. Então pensou:
- Aquele imprestável andou diminuindo esse banheiro! - Imprestável era uma referência direta e carinhosa ao seu marido. Bem, me desculpem mais uma vez os intelectuais, mas a coitadinha cagou, cagou.... Cagou tanto, mas tanto, que sentiu que as paredes do cubículo iam sufocá-la até a morte. Para distrair-se, tentou pensar em algo alegre, colorido e mais divertido. Estava cansada de se sentir deprimida. Subitamente veio uma idéia a sua mente.
- Dizem que dinheiro não trás felicidade, é? Pois seria muito melhor estar deprimida em Paris do que aqui empurrando as paredes desse banheiro! – Divagava ela nos seus afazeres. Por um momento ela concordou plenamente com essa idéia maravilhosa que tinha ouvido de uma ex-modelo magérrima que agora era uma atriz super-hiper conceituada que dava conselhos na TV.
Pois bem, divagando e pensando, que dá tudo na mesma coisa, o tempo passou. Passou tão rápido que a pegou com as calças nas mãos. E foi tudo muito rápido. O portão rangeu, a porta bateu e o maridão vestido num macacão azul chegou esfomeado dizendo:
- Cadê meu docinho? Cadê meu docinho? Cadê meu docinho? – É, enquanto ela não respondia, ele repetia a bendita frase sem parar!
Ela então finalmente respondeu e recebeu o grande amor da sua vida com um beijo “caliente” na boca e as mãos ainda suadas. Ligou a TV e colocou-o para ver a nova novela com ex-modelos magérrimas e se pos a esquentar a janta. É minha gente, ela não tinha ciúmes da TV, pois estava treinando "auto conhecimento" e "crescimento peossoal" naquele programa dos conselhos supimpas que passa na TV...
- Meu docinho, o controle não tá estragado não! Você que colocou as pilhas do lado errado. – Corrigiu ele o ato falho da sua linda mulher que por desventura e falta de tempo ainda não sabia ler.
E não é que nossa “Maria” foi pega de surpresa mais uma vez? O tempo passou mais uma vez tão rápido que ela nem se deu conta de que a novela já havia terminado, o marido comido e ela, mais uma vez, estava ali sentada na frente da TV fora do ar. É, e ainda depressiva, muito depressiva. Sabe o que ela fez? Fez como ensinaram na TV... assaltar! Resolveu então assaltar a geladeira. Foi então que descobriu: o que sentia não era dor, estava grávida. Ela sorriu. Depois daquela hora, daquela santa hora, ela aprendeu a por as pilhas no controle remoto, sentou-se à mesa com o marido, voltou a estudar e nunca mais se sentiu depressiva. Nunca mais.
09 Novembro, 2007
Para Sempre...
Ela foi até o cais e ali parou. Malas feita, cabelo arrumado e um vestido verde amarrotado... Não sabia se era o entardecer ou o amanhecer. Dentro da mala, nada.
Só restava a certeza de que agora era tarde.
Foi a primeira vez que ela preferiu não lembrar. Assim não teria saudades. Não teria saudades de casa, não teria saudades de tudo...
Em muitos momentos ela sentiu tanto a falta de alguém que o que mais quis foi tirar essa pessoa dos seus sonhos e abraçá-la.
Conta a história que quando ela nasceu, já era sabido o seu destino. Ela então se ocupou com laços de fita, caixas velhas de sapato, fotografias... Mas nunca esqueceu, mesmo sonhando.
Ela construiu sua casa azul. Teve seu jardim de girassóis vermelhos. Leu seus livros cor-de-rosa para meninas misturado com Dostoievski e Proust. Viu as crianças brincarem de amarelinha até o dia em que mataram umas as outras. Conheceu outras pessoas que amaram tão profundamente que esqueceram de si mesmas para sempre. Viu outras que foram infelizes e nunca se deram conta disso.
Ela não foi a personagem de um livro que amou profundamente, muito menos foi infeliz depois do “e viveram felizes para sempre”. Tudo o que conheceu, o que sentiu, o que criou, coube em uma mala. Uma mala do tamanho da saudade.
- Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres. Pensava ela.
Dizem que ela nunca sofreu. Dizem também que ela nunca teve a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Muito pelo contrário, ela quis uma verdade inventada.
A sua casa azul, os seus girassóis vermelhos, o seu laço de fita amarela, as suas fotos e o seu vestido verde foram o seu “viveram felizes para sempre” até o “era uma vez”.
21 Junho, 2007
Foto: obra de Evelina Oliveira - arte contemporânea portuguesa. A CIDADE QUE NÃO ERA INVISÍVEL (MAS ERA)
"o sol já despontava sob a linha tênue do horizonte no mar. Foi então que uma tempestade de areia veio sobre o lugarzinho. Tudo foi, aos poucos, sendo encoberto pelos grãozinho brancos, até que a cidade desapareceu sob as dunas..."
(a)Moral da história?
Ninguém sentiu falta nem da cidade, nem das pessoas, nem das idéias que lá existiam.
Fim
02 Maio, 2007

Emerson Cardoso Nascimento
Os botões pra mim são abraços, as joaninhas lembranças, e os cadarços? Mais abraços... E assim, nas minhas aulas de artes, descobri que eu tinha um olhar de artista, um jeito de artista... Toda gente deveria ser artista. Não artista que pinta, que dança, que canta... Digo “artista” desses que sonham e fazem sonhar, que nos ensinam a ser gente pequena. Não pequena do tamanho de formigas, digo “pequena” no sentido da criança que mora dentro da gente.
Nas minhas aulas de artes eu não aprendi a desenhar em folhas brancas e tristes. Nas minhas aulas de artes eu aprendi a “significar”. Nunca desenhei bem, mas isso não era problema, pois eu sabia escrever. Sabia escrever de um jeito que ninguém entendia; só os artistas.
Nos meus textos eu gostava de falar das coisas sem importância, das coisas que os outros sempre disseram não ter significado algum. Mas eu não me importava com o que os “outros” diziam, até mesmo porque eu sempre encontrava “alguém” que gostava do que eu escrevia. O meu professor de artes, por exemplo. Uma vez ele me confessou que para um desenhista eu até que era um grande escritor. E assim, nas aulas de desenho livre, ao invés de eu ficar paralisado diante de uma folha branca e triste, passei a colori-la com palavras de “insignificância”. Seria bom se todos fossem artistas! Não para que todos entendessem o que eu escrevo, mas para a felicidade das joaninhas vermelhas, dos botões coloridos, dos cadarços encardidos e até dos alfinetes.
Era bonito ouvir nas minhas aulas de artes a matemática da obra artística: “muitas vezes o menos significa mais”, dizia meu professor-artista. E foi assim que passei a ser “gente”; gente daquelas pequenas (eu já expliquei que não é gente do tamanho de formiga).
Hoje eu não ligo quando os outros dizem que não entendem o que eu escrevo. Hoje eu fico feliz porque sempre encontro alguém que também se comove com os botões, as joaninhas, os cadarços, os alfinetes... E é de coisas insignificantes, gente pequenina c olhar de artista que eu componho meus abraços, meus textos... Meus sonhos.

Emerson Cardoso Nascimento
O que dizer quando o coração se cala? O que fazer quando os pensamentos cessam? Eram essas as indagações que Emengarda tinha dentro do seu relógio.
Quando Emengarda completou a idade de entender que era gente, ela esqueceu o que era felicidade.
Assim foi sua vida, como a de um ponteiro de um relógio que gira, gira e gira.... E da voltas, e mais voltas, e continua a girar sem parar... Mas nunca sai do lugar e nem fica tonto!
Quando as pilhas do seu pequeno relógio esgotaram, ela suspirou. Mas não foi um suspiro qualquer. Foi um suspiro que levou o tempo que se leva para dizer: “o tempo mandou perguntar para o tempo quanto tempo o tempo tem o tempo mandou responder para o tempo que o tempo não tem tempo de dizer quanto tempo o tempo tem”.
E foi na duração desse suspiro com gosto de tempo e cheiro de lembranças que ela descobriu o que tinha deixado adormecido na sua infância... Emengarda não era boba para contar isso a alguém, muito menos para um diário. Ela sempre disse que um diário é um bom amigo, pois sempre ouve atentamente os segredos, qualquer segredo. Mas apesar de ser mudo, não era conveniente contar-lhe com todas as palavras os segredos, pois ele facilmente enamorava-se por outros olhos.
Sua vida não deu muitas voltas nem reviravoltas. Não foi circular nem retilínea. Sua vida foi como tinha de ser. E tinha de ser como os sonhos. Como daqueles sonhos que quando acordamos ainda nos lembramos, ou lembramos quando ainda estamos sonhando, ou ainda, daqueles que quando acordamos nem nos damos conta de que sonhamos uma noite inteira...
Na verdade, Emengarda não se entristeceu por ter levado dentro do seu relógio apenas alguns segundos... Tudo dentro do seu relógio empalidecera-se, até os ponteiros. Mas o que era invisível, impalpável e imensurável, tornou-se intenso após seu suspiro, e então, ela sorriu. Sorriu e guardou junto do seu coração o segredo; o seu segredo.
E foi assim...
O coração de Emengarda calou-se e os seus pensamentos cessaram num breve e terno sorriso.

Emerson Cardoso Nascimento
Quando o menino abriu os olhos, ele já era menino.
De presente, se é assim que se pode chamar, ele ganhou duas pessoas. Que por sinal, também já eram bem grandes. Grandes do tamanho de um abraço. Mas um abraço daqueles que o menino só tinha visto.
E não é que as duas pessoas até pareciam com ele!
A essas alturas, era difícil não ficar feliz, ou quase feliz. Por que?
Porque com o presente que era até parecidinho com o menino, poderia agora experimentar o tamanho do abraço.
Mas havia algo estranho.
Ele já sabia alguns segredos que “presentes” como aqueles não conheciam, por isso logo percebeu pelas suas continhas que faziam sons diferentes. Sons dos quais nunca tinha ouvido, ou pelo menos não se lembrava, porque realmente eram diferentes!
Sim, diferente. Ou pelo menos foi o que pareceu aos ouvidos do menino.
Eu já disse que ele era grande?
Pois bem, quando ele ganhou o par de pessoas que eram maiores do que ele, bem maiores, ele até que ficou pequenininho, quase do tamanho de um grão de feijão, ou pelo menos foi quase isso que sentiu diante daqueles “duopares” de olhos que observavam atentos todos os seus movimentos; que ele acreditava que não eram desengonçados.
O menino que já não era bobo e nem nada, ficou meio sem jeito, quase intimidado, pensou até em chorar, mas era menino. E daí? Onde está escrito que meninos não choram? Então, mesmo assim, ele não chorou, e ele já sabia o que eram lágrimas. Sabia até que gosto tinha. Quase sempre eram quentes, mesmo quando fazia frio.
Eu já disse que ele abriu os olhos?
Pois bem, quando o menino abriu os olhos outra vez, ele já não estava mais onde estava. Foi difícil, mas ele estava começando a entender que tudo seria diferente, até mesmo que o diferente era difícil.
O menino nunca gostou de ficar sozinho, e nesse dia, nesse novo lugar que não era aquele outro lugar, ele chorou.
Se chorar fizesse surgir por entre as lágrimas o “duopares” de olhos, até que não seria nada mal. E foi assim. Eles apareceram.
Apareceram como do nada. Do nada que dali para frente seria o quase tudo, ou tudo, quando assim querem os meninos.
Mas não é que aquele par parecido de pessoas diferentes falavam diferente mesmo!
O menino, que já tinha aberto os olhos, e que já tinha nascido grande, e que tinha ganhado um par de pessoas, e que não era bobo e nem nada, logo percebeu que se tratava realmente de outro lugar que não era aquele em que estava.
- Der Vati ist auch hier! Disse uma voz grave que quase fez o menino lembrar onde não estava.
- La mère est ici! Disse uma voz doce que fez o menino lembrar onde estava.
Se ele não fosse menino, certamente choraria como fazem as meninas. Choraria de espanto ou de alegria, não se sabe. Mas sendo um menino grande, que só às vezes sentia-se do tamanho de um grão de feijão, resolveu então poupar o pouco de água que tinha guardado no canto esquerdo do olho. Só a usaria em últimos casos.
Ele sabia que o canto esquerdo do olho tem segredos que só conhecem os meninos maiores do que qualquer grão.
E com os olhos bem abertos, bem arregalados, quase do tamanho de oito formigas de mãos dadas, ele ouviu coisas das quais pensava não se lembrar e viu que ali poderia chorar até secar toda a água do canto esquerdo do olho, porque não faria diferença. Diferença porque agora era diferente. Ele estava. Estava em casa.
Bem, lá daquele outro lugar o qual ele já estava esquecendo, era preciso economizar as lágrimas. Se gastasse muito, ou tudo, que dá quase no mesmo, acabaria talvez lá não encontrando por entre os olhos molhados aquele par diferente de pessoas parecidas.
E não é que o menino já estava até achando graça em ouvir os presentes:
- We will speak in the same language, if not the boy will be crazy! Disse aquela
voz doce e agudinha. No fim das contas, o menino definitivamente estava gostando de ouvir.
O menino que já não era nada viu que esses sons ali eram tudo.
Não sei se foi incrível ou fantástico, ou se foi... Bem, o menino soube que naquelas vozes estava o seu lugar. O lugar que nem o para sempre poderia fazer esquecer.
O menino já estava se sentindo maior, apesar da cola do gato não ter dado ainda uma volta completa naquele monte de números colocados em círculo. Eu não disse que o menino não era bobo e nem nada! Ele podia não entender o que falavam, mas de números ele conhecia. Ah se conhecia! Conhecia todos. Todos eles. Todos mesmo. Do 1 até o 12. E ele ficou feliz. Muito feliz. E isso só do um até o doze!
Feliz, fechou os olhos e dormiu.
Quando o menino abriu os olhos, ele já era menino. Claro que ele já era um menino. Porque tinha nascido e já era grande. E não vale falar mais de grãos! Ele era grande e pronto!
Bem, o menino maiorzinho do que um graozão de feijão (e não vale rir dele), e que já tinha aberto os olhos, ficou feliz em ouvir tudo aquilo. Afinal de contas, o par de pessoas era como um monte de gente. Gente como grãos de feijão, formigas, gatos, vizinhos, amigos, pais, família... Um monte de gente que não deixa a gente.
Mesmo o gato girando a cola sem parar, o menino sabia que do um ao doze é o suficiente para se contar para sempre.
Eu já disse como nasceu o menino?
Bem, o importante é que de presente ele ganhou duas pessoas e que do 1 ao 12 para sempre foi o mesmo que um monte de gente.
13 Agosto, 2006
Les Cendres Des Heures

Foi sem ele saber por que. E assim, num dia qualquer, ele acordou e notou que o dia estava mais cinzento. Tudo estava calmo, com um gosto de "opaco". O mar já não dizia-lhe nada, nem as árvores, nem as horas... Não importava! O tempo continuava transcorrendo por entre seu coração, seus pensamentos... Mas realmente não importava; porque era como se nada acontecesse! Estranho era pensar que lá fora todos se preocupavam em quantas velas seriam apagadas nas próximas horas!
Ah! - Pensava ele - Se todos soubessem o quão insignificantes são as grandes coisas da vida...
E no segundo dia, após aquele dia cinzento, houve mais dias cinzentos como aquele... E assim, ele acostumou-se com o que era parte dele. O que causava-lhe medo, transfigurou-se em sentimentos.
Ele deixou de regar suas plantas, alimentar seus peixes, de dar corda no seu velho e pequeno relógio de pulso; que nunca mais despertou!
30 Julho, 2006
Misterios no resueltos

Disseram-no que viveria 60 anos. Todos sussurraram que era pouco. Mas ele, não estava nem aí. "60 anos é muito tempo" - pensava ele. E assim, os dias se passaram... E as horas não chegaram. Na TV ligada já não havia mais nenhum programa. Chuviscos; ruidos talvez... No computador nenhuma mensagem, nenhum download... Ele estava ainda vivo... Esperando!
Foram-se muitos anos...
As ruas se modificaram. As árvores cresceram. A cidade progrediu.... Até as crianças cresceram (o que lhe parecia impossível). E ele? (...) Adormeceu numa longa e eterna espera de 60 anos...
28 Maio, 2006
Será problema de cache?

Cercado pelas suas quartro paredes pintadas de verde ele sonhava. Na TV, todas as cores dum mundo do qual nunca foi o seu...
..."Que mistério é esse que acontece dentro do ator... Um corpo que se transfigura diante dos olhos do espectar... Um corpo que se desfigura... Um corpo que vive... Que mistério é esse que trasnpassa a técnica, a razão..."
Sentado, seus pensamentos voaram para além dos seus pés... As paredes continuavam verdes, mas tons de azuis agora lampejavam diante dos seus olhos...
Era o sonho... O sonho que não se emoldura em quadros na parede, nem em cores da paleta de um pintor...
Ele...
- "Hoje estou diferente"
Páginas soltas pelo chão. São horas que passam lentamente... Que vão se alimentando das poucas palavras que tenho...
Fugi...
de mim!
27 Maio, 2006
É parte de ti, como é parte de mim.












